segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Dossier Barcelona, mais que um clube! filho de Cruyff

  O Barcelona é neste momento (e já a alguns anos) a melhor equipe do mundo, tecnicamente superior a qualquer outro adversário no planeta, taticamente brilhante com uma filosofia que atravessa gerações, e que encontrou em um de seus filhos mais amados o guia perfeito para levar o “Estilo Barcelona” a outros níveis.

  Para entender a evolução da atual equipe catalã, é preciso conhecer alguns aspectos na vida de seu treinador Pep Guardiola, sobretudo suas influências como jogador e agora técnico. Chegado ao clube com 13 anos, o garoto nascido em Santpedor na própria Barcelona,treinava em “La Masia” o centro de treinamento das equipes de base do Barça, quando o então comandante da equipe principal, ninguém menos que a lenda Johan Cruyff, ídolo e mito culé, o viu treinar.

  Até então Guardiola, um jovem franzino, gandula nos jogos da equipe principal, atuava como meia direita sonhando em ser como seu ídolo Bernd Schuster, meia alemão de enorme categoria que atuou na catalunha entre 1980 e 1988.Admirado com a qualidade técnica do garoto, Cruyff ordenou a Charles Rexach que mudasse sua posição, colocando-o como volante central, uma especie de farol iluminando desde o campo defensivo as ações da equipe.

  Estava ali plantada a semente de uma carreira brilhante como jogador, mesmo sem ser fisicamente um monstro,para atuar como volante, Pep tornou-se símbolo do primeiro período vitorioso do Barcelona comandado por pelo técnico holandês , uma equipe tatica e tecnicamente brilhante(como a atual), apelidada de “Dream Team” e que conquistou o primeiro título europeu para os catalães em 1992 contra a Sampdoria no estádio de Wembley.

  Mesmo contando com jogadores excepcionais como Romário, Stoichkov, Koeman, Laudrup Bakero, Begiristain, etc, “o salvador” Cruyff insistia que seu melhor jogador era o já muito bem adapatado volante Guardiola, e o motivo era simples de ser detectado, o atleta, fiel discípulo do mestre Holandês e por ele formado, era a perfeita representação em campo da filosofia futebolistica apregoada pelo técnico: qualidade técnica, capacidade tática, inteligência de movimentos, desenhando jogadas com régua e compasso afinal como sempre disse o mestre, futebol é para ser jogado com a cabeça.

  A influência de pensamento e filosofia do gênio Holandês, reflete hoje na vida como técnico de Pep Guardiola, aqui neste video“El futbol segons Johan Cruyff”, um programa da TV catalã tenta explicar os conceitos implantados pelo eterno camisa 14 sobretudo nas categorias de base, além é claro do time principal, dando inicio a formação do tal “Estilo Barcelona”, impressiona pela simplicidade das idéias, muitas inclusive parecem óbvias e dignas de riso, porém como sempre salientou o próprio Johan: “Futebol é um jogo simples, mas o mais difícil que existe é jogar futebol simples”.

A filosofia do mestre:

1- Se você tem a bola o adversário não a tem: só se joga com uma bola......!
  
  Posse de bola, desde os tempos do “Dream Team” até a equipe atual passando pelas categorias de base, qualquer conjunto de 11 atletas com a camisa azul-grená que entre em campo, tem o controle da posse e por consequência das ações do jogo, como fator primordial para sua existência, a declaração de Guardiola ilustra bem este detalhe:

“Sem a bola nós somos uma equipe desastrosa, uma equipe horrível, então nós precisamos da bola”

Dentro deste conceito Cruyff ainda menciona outro fator de extrema importância:

1.1- O campo pequeno, em suas palavras, os jogadores com qualidade técnica rendem melhor em um campo pequeno(sentido Horizontal), com seus jogadores posicionados ao ataque, para que por exemplo Laudrup não tenha que recuar quarenta, cinquenta metros, e depois subir novamente. A equipe atual de Guardiola, é fiel representante deste conceito, observe em qualquer jogo o posicionamento da defesa muito próxima ao meio campo, metaforicamente reduzindo o campo de jogo sem alterar suas dimensões fisicas reais. O resultado desta ação deixa a falsa impressão, em uma análise superficial, que o Barcelona pressiona noventa minutos o adversário, algo que certamente exigiria um preparo físico descomunal,quando na verdade, a recuperação da bola em posições adiantadas, é resultado da ofensividade(posições avançadas mesmo sem a bola) da equipe em um campo reduzido e uma pressão coordenada, e não unicamente de uma pressão constante e descoordenada.

2- O importante é o ritmo da bola:

  Observe a quantidade de passes que o Barcelona e a seleção espanhola campeã do mundo com 7 jogadores barcelonistas dentre os onze titulares, trocam durante um jogo. A mudança de ritmo, a inversão de jogo com passes curtos rápidos, ou longos e em profundidade, sempre impondo seu ritmo diante de qualquer adversário, simbolizado pelo reconhecimento de Xavi o rei dos passes, como o cérebro de ambas equipes.

3- É necessário potencializar as qualidades básicas:

  Mais uma vez a simplicidade apregoada por Cruyff, o jogo do Barça parece e é simples(e por isto tão dificil de ser marcado e tão bonito de se ver), um simples giro de Iniesta com a bola quebrando a marcação adversária, a precisão de passe dos jogadores, a concentração na execução das jogadas, a atenção com o posicionamento, para que o ritmo da equipe nunca seja quebrado com faltas e a perda da posse de bola. Detalhes que segundo o próprio mestre, muitas equipes deixam passar,ou não prestam atenção e acabam perdendo sua coesão e ritmo por um simples erro de passe de dois metros, ou na falta de concentração de seus atletas.

4-É necessário sempre ganhar o um-contra-um:

  Na defesa e sobretudo no ataque onde se faz necessário jogadores capazes de ultrapassar um adversário no confronto direto, gente com qualidade técnica e criatividade para criar situações de risco, desequilíbrio e desta forma marcar gols e vencer a partida. Este conceito dita a incessante busca por jogadores tecnicamente qualificados para ocupar as posições de ataque, sejam reforços como Ronaldinho Gaúcho ou talentos formados em casa como Lionel Messi, a capacidade de inventar jogadas de desvencilhar-se de marcações, abrir espaços além de criar e marcar gols, é requisito fundamental na politica de contratação e formação Culé.

5-”Prefiro ganhar por 5 a 4 do que por 1 a 0”:

apresentador:
-mas aí você sofreu quatro gols!?

Cruyff:
-Sim mas e daí? Se você marca um a mais(que o adversário), não tem problema........

  O futebol espetáculo sempre, voltado para o público e não para o resultado,ainda nas palavras do mestre, o objetivo é sempre a vitória, claro, mas se a derrota acontecer é preferível que esta seja por 6 a 3 do que por 3 x 0, pois ao menos o público tem uma tarde mais agradável em termos de futebol como espetáculo. Este item justifica todos os outros, entender a verdadeira essência do esporte, seu espirito de entretenimento voltado ao público e não aos engravatados dirigentes e sua obsessão por dinheiro e resultado, Johan era muitas vezes alvo de discussão por exigir de suas equipes que mesmo com o resultado favorável continuassem a atacar incessantemente, ao invés de administrar o resultado, sempre alegando não existir som mais bonito do que a grito da torcida após uma bola na trave, mesmo com um placar de 4 a 0.

  Estes cinco conceitos integrantes da filosofia de Johan Cruyff, estabeleceram o modelo de jogo do Barça, desde sua passagem como jogador até seu período vitorioso no comando da equipe, explicar a importância do Holandês dentro e ainda mais fora de campo no Barcelona, em Barcelona e na Catalunha requer uma análise separada e profunda, uma boa noção disto pode ser adquirida através do excelente documentário “En un momento dado” de Ramon Gieling lançado em 2004 e que retrata bem o impacto no futebol e na cultura desde sua chegada como atleta em 1973 do maior jogador holandês de todos os tempos na comunidade autônoma da Catalunha em plenos anos de opressão, sendo logo apelidado de “El Salvador”.

  O Barcelona é mais que um clube além das razões politicas, também por ser a obra prima de um gênio, o resultado perfeito da junção entre teoria e prática. O atual técnico, Pep Guardiola discípulo direto do mestre resume a obra do criador:

  “Cruyff construiu o edifício e os técnicos do Barça que o sucederam apenas trataram de restaurá-lo e reformá-lo”

  Como ciência o futebol é o resultado do aprendizado constante, assim o próprio criador reconhece além de seus próprios méritos, a influência daquele que considera o seu mestre, Rinus Michels,(o mestre do mestre), comandante do Carrossel Holandês na copa de 74 e do vitorioso Ajax dos anos sessenta e setenta, chamado Pai do Futebol Holandês, que formou o jogador Johan Cruyff nas “escolas de arte de Amsterdam” e o levou consigo para o Barcelona. Desta forma, poeticamente falando, dizemos que o Barcelona é filho de Cruyff, neto de Rinus Michels e sobrinho de Ajax, e como alguns visionários disseram, a vitória da Espanha sobre a Holanda na ultima copa foi na verdade uma vitória do Futebol Holandês.

  As similaridades no modelo de jogo entre “Tio e sobrinho” podem ser notadas em pequenos gestos(principios de jogo) e detalhes, como na reposição de bola, quando os dois zagueiros alargam o campo(sentido vertical), posicionados nas extremidades da grande área, permitindo o avanço dos laterais e exigindo o recuo do volante ou pivot para executar a saída de bola com jogo apoiado e trabalhado desde trás, marca registrada do “tio Ajax” expressa na qualidade tecnica e tatica dos ocupantes desta posição como Neeskens, Jonk, Muhren, Rijkaard etc, e transportada pelo DNA ao sobrinho, motivo da exigência de reposicionamento de Guardiola ainda em seus tempos de formação pelas mãos do visionário Cruyff, e que agora passa pelos pés de Busquets nascido futebolisticamente já na enraizada filosofia do mestre.

  Esta posição de pivot, comandante das ações à partir do centro do meio campo,muito mais do que um mero volante, é historica e fundamental na estrutura da equipe de Amsterdam desde muito tempo. É reconhecida como a de organizador, muito mais do que destruidor, no clube Ajacied tal função é denominada “nummer vier” -numero quatro, pois era justamente com a camisa numero 4 que tais jogadores entravam em campo antes do advento da numeração fixa, no Dream Team montado por Cruyff na catalunha, Guardiola colocado nesta posição carregava  a camisa 4,mais do que um simples detalhe, uma questão de identidade.

  O agora técnico vitorioso Josep Guardiola i Sala, restaurou e reformulou alguns aspectos no modelo, incutindo as suas próprias ideias, mas tendo sempre como pedra fundamental os ensinamentos básicos e “simples” de seu professor. O modelo é maior que o sistema ou preferências individuais, e isto torna o Barcelona tão forte, desde os garotos de “La Masia”aos profissionais que encantam no Camp Nou, seja com Guardiola ou Van Gaal no comando o “Estilo Barcelona” segue a filosofia de um único homem: Johan Cruyff.

  Aqui alguns videos para ilustrar a supremacia do modelo sobre sistemas e comandantes:

  Primeiro um gol trabalhado ao “Estilo Barcelona” em 2001 sob comando de Louis Van Gaal diante do Liverpool: http://www.youtube.com/watch?v=XuGk_X85WcI mais de sessenta passes, troca de posição e deslocamento em velocidade, temperados com enorme capacidade técnica e tática coletiva, a teoria colocada em pratica, culminando com o gol de Overmars.

  Neste, http://www.youtube.com/watch?v=rPxF9o5Op5M&feature=related um exemplo mais recente da mesma filosofia no time já sob comando de Pep Guardiola, diferentes interpretes o mesmo modelo de jogo,Henry acaba perdendo o gol.

  Por fim uma imagem vale mais que mil palavras aqui: http://www.youtube.com/watch?v=OCG_hYbsJiU , o mais fiel discípulo e produto da filosofia Cruyff, orienta seus jogadores no incio da prorrogação contra o Shakhtar Donetsk da Ucrânia pela decisão da Supercopa da Europa, reparem nos princípios propostos por Guardiola, para que seus jogadores saiam vitoriosos, o retrato mais fiel de sua formação futebolística....


quarta-feira, 10 de novembro de 2010

It's Boxing Day!

  Boxing Day é o feriado nacional que ocorre em países como Inglaterra, Escocia, País de Gales, Canadá, Suécia e tantos outros, normalmente no dia seguinte ao Natal ou seja 26 de dezembro,salvo em ocasiões nas quais tal dia é um final de semana, sábado ou domingo, quando então o feriado é adiado para a segunda-feira.

  De inspirações profundamente religiosas, a explicação mais aceita para a origem do nome dentre muitas teorias, é de que a séculos as Igrejas abriam no dia seguinte a celebração do nascimento de Jesus Cristo, as caixas(box em inglês) de donativos colocadas em seu interior no dia do Natal, para distribuir o dinheiro arrecadado aos necessitados.

  Dentre muitos aspectos comerciais comuns como a liquidação em lojas de seus produtos por preços muito abaixo do normal, e eventos esportivos variados, na Inglaterra especificamente é um dos dias mais importantes e empolgantes no calendário do campeonato nacional, em todas suas divisões.

  O Boxing Day, é quase como um grito da verdadeira essência futebolistica nas terras da rainha, enquanto os outros campeonatos nacionais ao longo da Europa param para os festejos, e seus atletas já se encontram em férias, na Inglaterra, os jogadores se preparam intensamente para uma sequência extremamente desgastante: duas rodadas em apenas três dias.

  Na tentativa de se evitar a necessidade de deslocamento por grandes distâncias das equipes visitantes e seus torcedores, os jogos marcados para esta data são entre rivais locais, da mesma cidade ou região. Diante deste cenário a profundidade e qualidade do elenco das equipes é posta à prova, sendo as mesmas obrigadas a utilizar muitas vezes alguns jogadores considerados reservas devido ao alto estresse físico e emocional dos jogos tão próximos e importantes.

  Sob o ponto de vista cultural, esta é a grande marca do Futebol na Inglaterra, sua ligação com o passado, com suas tradições culturais únicas. Trabalhadores apaixonados por futebol podem então acompanhar seu time de coração em um Derby local em pleno estádio, fato que em alguns casos torna-se programa familiar de uma nação louca pelo esporte “nascido” em suas terras, e que faz parte do dia a dia de cada cidadão Inglês.

  Este é um fator a mais de complicação na adaptação de muitos jogadores estrangeiros ao futebol de sua majestade, atuar em pleno festejo natalino e para tal ficar distante de sua própria família e amigos, ao invés de presentes e festas, treino tático e fisico culminando em disputas com alta intensidade, outra marca registrada da cultura futebolistica na Inglaterra.

  Embora também sofram com seus efeitos “negativos”, os jogadores nativos, mentalmente se encontram mais preparados para o Boxing Day, criados desde o berço com este costume, já planejam antecipadamente a “logística” semana Natalina, e suas famílias tem de se adaptar as exigências da profissão. A melhor definição com relação a esta tradição e que demonstra a importância do futebol na cultura do povo Inglês é resumida em uma frase brilhante, atribuída ao antigo atacante do “English Team”(a seleção da Inglaterra) Gary Lineker, lembrado dentre outros bons motivos por nunca ter recebido um cartão seja vermelho ou amarelo em seus 16 anos de carreira profissional:

  “O Boxing Day é uma oportunidade para sair de casa, farto de aguentar conversas sem interesse, tomar umas cervejas com os amigos e assistir futebol, o paraíso deve ser uma coisa assim!”

God save the queen, It's Boxing Day........

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A transformação do São Paulo


É sem dúvida um dos pontos a ser destacado neste campeonato brasileiro de 2010, o excelente trabalho realizado pelo técnico Paulo Cesar Carperggiani primeiro no Atlético Paranaense, e agora no São Paulo, comum entre os dois trabalhos o sistema :4-2-3-1, e alguns princípios no modelo de jogo: posse, passe em apoio, controle, e ofensividade.

Antes da chegada de Carpeggiani, a equipe são paulina vivia um momento de baixa produção e muitos pareciam conformados com a  disputa da copa do Brasil no ano seguinte, algo impensável para uma equipe que acostumada à disputar a Libertadores da América de maneira frequente nos últimos anos.

Os problemas e incertezas tricolores eram resultado direto daquilo que o time mostrava dentro de campo, jogadores desmotivados, pouco equilíbrio tático, sistema pouco efetivo, etc. Ricardo Gomes marcado por uma exibição extremamente defensiva diante do Internacional no jogo de ida das semifinais da libertadores, não parecia capaz naquele momento de reverter a situação e acabou fora do comando da equipe.

Sergio Baresi, treinador das equipes de base, foi escolhido como interino, numa aposta pessoal do presidente Juvenal Juvêncio, na tentativa de facilitar a transição dos garotos formados no CT de Cotia à equipe principal. Apesar de alguns resultados positivos a sequência do campeonato mostrou que Baresi ainda não estava preparado para ele próprio fazer a transição e a diretoria tricolor resolveu apostar na volta de Carpeggiani, rotulado como professor Pardal em sua primeira passagem no comando da equipe em 1999, por algumas decisões táticas duvidosas.

Foi com este cenário que o gaúcho de Erechim retornou ao Morumbi, credenciado pelo excelente trabalho no Atlético. Em seus primeiros treinos, a imprensa logo destacou a enorme carga de trabalho tático promovida por Carpegiani, necessária para que o 4-2-3-1 e seu modelo de jogo fossem rapidamente assimilados.

Adotando o mesmo sistema de seu trabalho no Paraná, a tarefa foi de certa forma mais “facil”(salientando que não existe facilidade nenhuma em montar qualquer equipe),em virtude do elenco mais qualificado com qual pôde contar na equipe Paulista. O primeiro passo foi implantar o modelo com posse, baseado em passes curtos, com apoio curto na na ação ofensiva, e no momento seguinte, a agilidade na transição defensiva fosse daqueles que partem para o confronto direto ou daqueles cuja missão inicial é ocupar espaços.

A decisão mais interessante de Carpegiani, foi na escolha da dupla de volantes, pelas características dos dois atletas escalados, podemos notar a intenção em assumir o controle do jogo e atacar o adversário. Rodrigo Souto, um excelente jogador embora reconhecido pelo seu bom trabalho defensivo, possui boa capacidade ofensiva, sua alegada lentidão exige um estilo de jogo mais pausado, de posse, para que seus passes e leitura de jogo possa surtir efeito.

Ao seu lado, o atleta escolhido foi o até então esquecido Carlinhos Paraíba, um meia canhoto adaptado, e é justamente neste ponto que o sistema ganha ritmo, a grande maioria da ações ofensivas são paulinas é iniciada por Paraíba, após receber normalmente um passe curto da defesa é o camisa 31 que dita o ritmo de jogo da equipe, ora temporiza e mantem a posse, ora acelera o jogo com um passe em profundidade em busca de um companheiro em deslocamento.

Embora questionado por alguns, o agora segundo volante é de vital importância neste momento para a sequência tricolor no campeonato, os jogadores disponíveis para cobrir sua ausência oferecem dinâmicas de jogo diferentes e podem exigir alterações nos princípios de jogo. Sem Carlinhos Paraíba, a linha ofensiva é obrigada a recuar para receber a bola sob o risco de caso não o faça, aumentar a distância entre as duas linhas: meio campo - ataque, perdendo a equipe sua fluidez de jogo, por estes motivos a participação do ex-jogador do Coritiba é tão importante, como um “queima linhas”, o elo de ligação entre dois setores.

Para que o sistema como um todo tomasse vida no entanto os demais setores também deviam estar ajustados, e Carperggiani apostou em uma linha defensiva mais posicional, contando com a segurança de Alex Silva, em ótima fase, e Miranda, protegidos pelo jogo tático e consciente de Jean, volante por formação há muito tempo deslocado para a lateral direita, e Richarlyson na esquerda.

No ataque, méritos ao técnico pelo inicio de recuperação de Dagoberto, colocado em uma posição em que suas características individuais podem ajudar melhor a equipe, uma especie de ponta esquerda. O atleta paranaense tem feito bons jogos, partindo em diagonais com a bola dominada em busca do gol, ou tabelas e ainda servindo companheiros.Embora ainda peque pelo preciosismo na hora da finalização, muitas vezes optando pelo mais dificíl, quando a solução simples parece o melhor caminho. Pela ponta direita um dos candidatos à revelação do campeonato, o jovem Lucas, embora realize movimentação algumas vezes semelhante a de Dagoberto, sua principal arma é a velocidade com a que consegue ultrapassar os marcadores, o que lhe oferece muitas oportunidades de gol.

Como armador central na segunda linha de meio campo, Fernandão parece o escolhido pelo comandante para desempenhar uma função quase de pivô do futebol de salão, recebendo a bola muitas vezes de costas para o gol contrário, e rapidamente executando um passe em direção aos jogadores que se infiltram, além de também se apresentar para a finalização. O grande problema neste tipo de situação é que jogadores colocados nesta posição podem sentir-se “enclausurados” entre o meio e o ataque, acabando sem função quando a equipe resolve apostar em uma ligação mais direta, ou quando o chamado centroavante não é exatamente um clássico camisa 9 fazedor de gols,como é o cenário no São Paulo.

Ricardo Oliveira é neste momento tecnicamente o melhor atacante atuando no futebol Brasileiro,(considerando-se a questão fisica de Ronaldo) sabe fazer gols, busca sempre os espaços com uma excelente leitura tática, movimenta-se como poucos abrindo espaços para os companheiros, e por isto exige de Fernadão maior velocidade para aproveitar os espaços por ele criados,quesito em que o armador não pode mais ser tão efetivo do alto de seus 1,90m e 32 anos, o problema teórico é menos percebido pela movimentação dos jogadores das pontas Dagoberto e Lucas, retirando o protagonismo do eterno ídolo colorado, apelidado de “Capitão América”, após a conquista da libertadores pela equipe do Internacional como protagonista e capitão.

O trabalho realizado por Paulo César Carpeggiani de maneira tão rápida e com bons resultados, devolveu ao clube a condição de disputar uma vaga na libertadores do ano que vem, embora ele mesmo faça questão de salientar a dificuldade de conseguir tal objetivo, mas fundamentalmente as ações serviram para tranqüilizar o ambiente no Morumbi, quaisquer sejam os resultados finais, resta a expectativa positiva de como será a participação do técnico na próxima temporada, sua oportunidade direta de firmar de uma vez por todas seu nome no cenário dos melhores técnicos do Brasil, depois de um inicio promissor como campeão do mundo no comando do Flamengo em 1981.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O Medo de Mourinho

  Durante entrevista coletiva antes do primeiro jogo entre Real Madrid e Milan na fase de grupos, o técnico português José Mourinho respondeu à uma afirmação de seu adversário Maximiliano Allegri, treinador do Milan, de que não teria medo em atacar a equipe madrilenha em pleno Santiago Bernabeu, casa da equipe “Blanca”, e para tal ventilou a possibilidade de escalar o quarteto ofensivo milanista: Ibrahimovic, Ronaldinho, Pato e Robinho.

  A resposta de Mourinho, “the special one” o especial, como se auto-intitulou em seus tempos de Chelsea, foi de certa forma enigmática:

“Até podem jogar com dez jogadores ofensivos, desde que Inzaghi não jogue. Se jogar será um pouco mais dificil”

  Diante do chamado “quarteto fantástico” porque um dos maiores treinadores da história do futebol, estaria preocupado com um veterano atacante, de 37 anos, reserva na equipe de Allegri, e que se encaminha ao fim de carreira?, teorias sobre a declaração começaram à surgir, a mais recorrente e aceita por alguns analistas, é que tratava-se de uma grande jogada do técnico Madridista, na tentativa de induzir seu adversário à um teórico erro de escalação, fazendo o que Mourinho desejava, algo comoa teoria da psicologia reversa.

  Por fim, a ameaça de Allegri não se confirmou e seu Milan não apostou no quarteto fantástico, não atacou o Real Madrid de maneira constante, nem mesmo escalou Inzaghi desde o inicio, deixando o Santiago Bernabeu com uma derrota por 2 à 0, completamente dominado pela superioridade do Real.

  O jogo de palavras parecia esquecido, e o partida da volta em Milão seguia o mesmo caminho dentro de campo da ida, com amplo dominio madrilenho, superior em movimentação, criatividade, e velocidade de ações, diante de um Milan apático, taticamente perdido, pouco empenhado, apostando na individualidade de alguma de suas estrelas, muitas destas em péssima fase .

  Com um gol de desvantagem, Allegri resolve tirar de campo o apagado Ronaldinho Gaúcho, para mandar à campo, exatamente o homem que “provoca medo” em José Mourinho, o veterano Filippo Inzaghi, aos 60 minutos de jogo( 15 do segundo tempo). Oito minutos depois “Superpippo” como o chama a torcida do Milan, aparece no lugar certo e na hora certa para aproveitar o rebote na falha do goleiro Casillas, resultado: empate um a um, e delírio da torcida, não satisfeito, aos 78', em claro impedimento, dando razão a frase de Sir Alex Ferguson técnico do Manchester United que afirma: “Inzaghi nasceu em impedimento”, o camisa 9 rubro negro faz seu segundo gol no jogo, o septuagésimo em competições européias, ultrapassando Raúl para se tornar o maior artilheiro europeu, justificando os temores do português.

  O “medo de Mourinho”, é fruto de seu profundo conhecimento de tudo que cerca uma partida de futebol, desde aspectos corriqueiros como sistemas táticos, até as caracteristicas mais profundas de determinados jogadores e suas possíveis influências na dinâmica do jogo, sejam estas à seu favor ou não.A capacidade do técnico nascido em Setúbal, filho de Félix Mourinho antigo goleiro com uma convocação para a seleção Portuguesa, é a consequência de uma vida dedicada ao estudo social e futebolistico, de sua precocupação minuciosa com tudo que julga necessário para o sucesso dentro e for a de campo.


   Inzaghi não é o maior atacante de todos os tempos, mas tecnicamente é um excelente jogador, e o termo tecnica aqui empregado, não deve ser confundido com habilidade, dois conceitos absolutamente distintos. A capacidade tecnica refere-se ao dominio de aspectos básicos e fundamentais ao jogo: saber, aonde, como e com qual intensidade chutar uma bola, executar um passe ou uma finalização, saber mover-se com inteligência tática, ajustar a posição do corpo na hora de tocar na bola e assim por diante, já a habilidade pode ser entendida acima de tudo como um dom, a capacidade de improviso, o controle além do comum, o drible, a inventividade,etc.Pippo, além disto possui algo ainda maior que o torna tão carismático: o coração, a paixão por aquilo que sabe e gosta de fazer, seja no seu septuagésimo gol europeu, ou num gol de jogo amistoso contra um adversário de segunda divisão, a intensidade na comemoração do tento é a mesma, a felicidade por colocar a bola no fundo das redes é intensa, e esta fica estampada em seu rosto, na corrida com os braços abertos.

  A equipe montada por Mourinho no Real Madrid, assim como as anteriores, notoriamente o Porto campeão europeu em 2004, baseiam seu modelo de jogo dentre outros aspectos na defesa alta, em linha de impedimento, desta maneira “Special One” , tinha a clara noção de como a movimentação de Inzaghi que procura sempre tal linha como se dela dependesse sua vida, poderia vir a se tornar um fator de desequilibrio em favor de seu adversário, o que o obrigaria a modificar o sistema tático ou até mesmo seu modelo de jogo.

  Como aconteceu no final da partida em que substituiu o zagueiro Pepe, perdido e extremamente irritado após falhas individuais,provocadas pela mudança de movimentação no ataque Milanista, pelo meia/ponta Pedro Leon, formando uma espécie de linha de trêz zagueiros, com o lateral Marcelo como um dos elementos. A arriscada decisão rendeu o gol de empate saído dos pés justamente do jovem Leon.

  Tudo isto explica porque neste momento, Mourinho é considerado o melhor técnico em atividade no mundo, e certamente um dos maiores da história, sua arrogância, suas declarações por vezes ofensivas, sua soberba e tantos outros aspectos não reduzem de qualquer forma, a enorme capacidade como técnico de futebol, de alguém extremamente culto, e que trabalha cada dia mais para ser o que é, a prova de que o futebol além de arte, também é ciência, e que portanto deve ser estudado, e entendido, em conjunto com todos os outros aspectos da vida, afinal como diz o título do livro “L'alieno Mourinho” (O Alienigena Mourinho) de Sandro Modeo, “Chi sa solo di calcio, no sa niente di calcio”- “Quem sabe só de futebol, não sabe nada de futebol”.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

De olho na qualidade

SERGINHO

Sergio Antonio Borges Junior
Clube: Atletico MG, posição: Volante/Meia
Nascimento: 4 de agosto de 1986


Um bom jogador de meio campo, com  chegada à frente, partindo de posições recuadas seja como volante ou como meia, tenta sempre corridas diretas ao gol adversário, com ou sem a bola, ideal para composição de um meio campo ofensivo, Seu ponto fragil é que muitas vezes em seus avanços acaba fora de posição exigindo uma boa sincronia com seus companheiros para não expor demais a equipe.Com 24 anos tem alguma margem de evolução.


WERLEY


Werley Ananias da Silva
Clube: Atletico MG, posição: Zagueiro
Nascimento: 5 de setembro de 1988


Excelente zagueiro, com apenas 22 anos, boa velocidade, agil, e com boa capacidade de leitura de jogo, o jovem formado no próprio Atlético demonstra segurança na retaguarda mineira, seja como zagueiro central, quarto zagueiro ou atuando em linha de três. É uma boa aposta para o futuro.


FABRICIO


Fabricio Silva Dornellas
Clube: Palmeiras, Posição: Zagueiro
Nascimento: 20 de fevereiro de 1990


Um zagueiro de enorme potencial, com qualidade tecnica invulgar e tranquilidade comum somente aqueles que sabem como agir com a bola nos pés, canhoto,tem a segurança de avançar com ela dominada e iniciar ações ofensivas.Começou no Flamengo foi emprestado ao Paraná e ao Hoffenheim da Alemanha, atua pela seleção brasileira sub-20. Quando chegou ao Palmeiras foi improvisado por Felipão na lateral esquerda, e aos poucos ganhou a confiança do comandante para atuar na sua posição de quarto zagueiro. Não é muito veloz, e seu excesso de vontade o leva a cometer muitas faltas desnecessárias,precisa claramente melhorar a capacidade de desarme.Demonstra no entanto execelente margem de crescimento.


SAHIN


Nuri Sahin
Clube: Borussia Dortmund, Posição: Volante
Nascimento: 5 de setembro de 1988


Um dos melhores volantes organizadores em ação neste momento, o turco Sahin nascido na Alemanha, encanta a cada toque com seu pé esquerdo na bola, fisicamente forte, desarma com razoavel habilidade e quando em posse, dita o ritmo do excelente começo de temporada de sua equipe atual líder da Bundesliga. Sempre com a cabeça erguida, é o cerebro  e referência de seus companheiros, seu movimento preferido é o passe em profundidade, embora os chutes de longa distância também façam parte de seu amplo repertório tecnico.


KJAER


Simon Kjaer
Clube: Wolfsburg, Posição: Zagueiro
Nascimento: 26 de março de 1989


Um zagueiro para o futuro, embora já no presente seja uma certeza, o dinamarquês Kjaer impressiona só de pisar no gramado com seus quase 1,90m. Formado pelo Midtjyland em sua terra natal, foi contratado pelo Palermo em 2008, após boas atuações chamou a atenção do time da Volkswagen, o Wolfsburg que aceitou pagar 13 milhões de euros por seus serviços.Forte no desarme, firme como uma rocha, possui também a habilidade para iniciar jogadas, sobretudo com o passe longo, além é claro do jogo aéreo defensivo e ofensivo, seu ponto fragil mais notório ainda é o posicionamento, em muitos momentos é batido por uma decisão errada de posição, com apenas 21 anos a margem de crescimento é enorme.


WILLIANS


Willians Domingos Fernandes
Clube: Flamengo, Posição: Volante
Nascimento:29 de janeiro de 1986


Bom volante "box-to-box", marca com uma intensidade incrível,muito bom desarme e sai em velocidade para oferecer linha de passe as seus companheiros ou finalizar jogadas ofensivas, destacou-se no Santo André e acabou contratado pelo rubro negro carioca em 20009, oscila muito entre boas atuações e outras nem tanto, muito em função de sua baixa capacidade de passes, com 24 anos pode ser util na formação de um elenco capaz de oferecer alternativas à seu treinador, como no próprio Flamengo, onde fixou-se como titular mas em circunstâncias específicas acaba substituido por jogadores com outras caracteristicas.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Mudar ou não mudar? eis a questão!

A encruzilhada Corinthiana
 
  O Corinthians encontra-se neste momento em um dilema existencial, que neste campeonato pode ser a diferença entre a conquista do título ou não. O grande cerne da dúvida alvinegra é lidar com a incapacidade do elenco em suprir a ausência de dois jogadores vitais ao modelo de jogo implantado por seu idealizador Mano Menezes.


  E este teorico problema não passa apenas pela qualidade tecnica de alguns de seus componentes, mas acima de tudo, pelas caracteristicas individuais e de movimentação que os mesmos podem oferecer à equipe, exigindo outro tipo de abordagem ao jogo.O modelo de Mano baseava-se em uma defesa recuada, aproveitando ao máximo a boa capacidade de leitura de jogo de William, aliada a capacidade de Chicão em efetuar a marcação do atacante adversário de maneira mais direta. Nas laterais, Alessandro e Roberto Carlos, ofereciam suporte à linha defensiva através de sua boa capacidade de posicionamento.


  Protegidos por uma dupla de volantes mais tática, ocupada  primeiro  em tarefas defensivas, a equipe de Parque São Jorge partia para o  campo com uma consistência defensiva  impressionante,muito embora a fase ofensiva acabasse prejudicada pelo posicionamento recuado de sua defesa e meio campo.Em busca do equilibrio e melhor aproveitamento do espaço criando no campo adversário, consequência natural deste tipo de abordagem, Mano utilizava a velocidade de Dentinho e Jorge Henrique para executar a transição ofensiva, com bom resultado prático.


  Uma vez recuperada a bola, a saída para o ataque logo buscava suas duas flechas, abertas pelos lados do campo, no 4-2-3-1 do atual treinador da Selecao Brasileira. O centroavante e o meia central desta forma, tornavam-se meros coadjuvantes tanto de Dentinho quanto de Jorge Henrique, pelo modelo de passes rapidos e diretos, com a simples função de abrir espaços e ou servir de ponto de referência às tabelas, a ausência de Ronaldo que certamente oferece um algo a mais por sua indiscutivel capacidade tecnica, fazia-se menos sentida, e até mesmo o criticado Souza cumpria sua função, sem causar grandes problemas enquanto os resultados eram favoráveis.


  A saída de Mano para a o comando da seleção nacional, foi certamente uma grande perda para o Corinthians,pelo seu grande conhecimento do elenco por ele montado,e seu excelente relacionamento com os atletas, no entanto o fator fundamental para a turbulência vivida pela equipe, foi a perda de suas duas principais armas de ataque, Dentinho e Jorge Henrique, sem que no elenco existissem jogadores com a mesma capacidade de acelerar o jogo, e excutar   movimentacao semelhante a da dupla titular. O argentino Defederico em teoria seria o mais indicado a suprir tal exigência, o que se viu no entanto  dentro de campo em muitas de suas participações foi a teoria indo por água abaixo.

  Adilson Batista que assumira  o comando com a equipe na liderança, viu-se obrigado a buscar alternativas, mas ao invés de efetuar mudanças no sistema tático, resolveu modificar  algo muito maior, o modelo de jogo, um conceito absolutamente inegociável em qualquer equipe  durante a disputa de um campeonato sem que os riscos se apresentem.Adepto de um futebol mais ofensivo, com passes menos horizontais e mais verticais, sempre em busca da profundidade, Adilson adiantou a linha defensiva, e exigiu maior participação ofensiva de sua dupla de volantes, que constantemente eram vistos em ações ofensivas tentando reduzir desta forma a dependência do jogo pelas pontas devido a pouca capacidade dos jogadores que nelas se encontravam em decidir jogos.


  Em disputas contra equipes semelhantes, voltadas ao ataque assim como o "novo corinthians" , o modelo de Adilson conseguia encontrar os espacos necessários para se desenvolver como na brilhante atuação diante do entao líder Fluminense em pleno Engenhão, ainda no primeiro turno,quando seus jogadores efetuaram uma das exibições mais conscientes taticamente que uma equipe pode apresentar.


  O efeito negativo da "revolução de Batista", foi notado diante de adversários mais fechados que ofereciam pouco espaco em seu campo defensivo pelo seu posicionamento recuado, e como fator chave,  buscando contra-ataques com grande velocidade, desta forma clara vantagem diante da pouca aceleração do setor defensivo corinthiano, e sua baixa capacidade de recuperacao.A mudança no modelo de jogo cobrou seu preço na transição defensiva, exposta de maneira didática no último jogo de Adilson como técnico alvinegro, a derrota por 4 a 3 diante do Atletico Goianiense no Pacaembu.


  O novo comandante Tite, logo retornou a equipe à seu modelo original, e busca compensar a deficiência do elenco pelo caminho mais seguro, a simples alteração do  sistema de jogo, em seus primeiros jogos o 4-4-2 em losango foi o esquema adotado pelo técnico nesta que é sua segunda passagem no comando da equipe de Parque Sao Jorge, mantendo a proteção à defesa recuada, e o jogo mais sólido.O Corinthians de Tite, tenta basear seu jogo na capacidade tecnica do meia Bruno César, e criar novas rotinas de movimentação como solução ofensiva, tendo como pilar a segurança defensiva do modelo Mano Menezes, isto em meio a disputa do título brasileiro mais diretamente contra Cruzeiro e Fluminense, por isto impedido de errar.Preso à um modelo de jogo pouco efetivo sem seus grandes interpretes, a impossibilidade de trocá-lo pela deficiência na formação do elenco que não oferece grandes possibilidades de mudança , o gaucho Adenor Leonardo Bacchi,nascido em Caxias, tem uma missão trabalhosa pela frente, cabe no entanto, o alento  de estar  no clube certo para uma tarefa quase "Herculeana", afinal como dizem os seus próprios torcedores, no Corinthians nada é conquistado sem uma boa dose de sofrimento.

A Era da Velocidade

“...Criamos a época da velocidade mas nos sentimos enclausurados dentro dela...”, esta minima frase extraída do belo discurso humanista proferido por Charlie Chaplin na cena final do filme “ O grande ditador”, pode muito bem ser utilizada para entender o futebol atual, é claro que o discurso do barbeiro em filme escrito,dirigido,produzido e estrelado pelo gênio Chaplin, é muito mais complexo  profundo e social do que uma simples análise futebolistica, um discurso em favor do homem, um apelo a sua razão e consciência, e até mesmo profético em muitos aspectos como no pensamento:

“ ...mais do que máquinas, precisamos de humanidade,mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura.Sem essas virtudes a vida se tornará violenta e tudo será perdido...”

  No mundo futebolistico, entendido como expressão cultural e por isto reflexo da sociedade, a velocidade e esta prisão citada por um dos maiores génios  da história humana, também podem ser notadas. Quando assistimos à jogos mais antigos até o começo da década de 70 mais ou menos, somos transportados a um jogo quase em camera lenta, marcado pelo enorme tempo entre um jogador receber o passe e o adversário chegar para marca-lo, são notótios por exemplo os lançamentos sempre muito calculados e bem pré-planejados do “canhotinha de ouro” Gerson, na brilhante seleção brasileira da copa de 70 que encantou o planeta.

  Aqui trata-se apenas de uma constatação com relação a velocidade do jogo, e não um questionamento à qualidade dos jogadores, sua capacidade técnica, ou ainda pior um argumento favorável a eterna discussão  se os craques do passado jogariam no futebol atual, algo certamente descabido, pois uma das especificidades do futebol que o difere de qualquer outro esporte é sua total ausência de segregação, também  por questões fisicas, afinal como bem diz Johan Cruyff :“o futebol é um jogo para ser jogado com a cabeça”, assim os jogadores técnicos do passado seriam capazes de praticar o esporte em qualquer época exatamente por sua qualidade, tendo apenas de adequar-se as novas exigências fisicas.

  O rompimento do futebol dito do passado com o moderno, é marcado definitivamente pela aparição em 1974 da “Laranja Mecânica”, a seleção Holandesa que disputou a copa do mundo na Alemanha formada por craques como Neeskens,Rep,Haan,Suurbier,Krol,e num degrau acima Johan Cruijff,  comandados pelo maior técnico de futebol da história segundo a Fifa: Rinus Michels. Baseada em um estilo técnico aliado a uma enorme capacidade física que permitia a seus jogadores trocar de posições,executar mais de uma função, e sobretudo pressionar os adversários em seus campo, roubando-lhes a bola e saindo para jogar com uma velocidade até então nuca vista em um campo de futebol.

  Embora o embrião desta fantástica equipe tenha sido o Ajax de Amsterdam dirigido pelo próprio Michels que assombrou a europa no fim dos anos 60 começo da década de 70, foi com a camisa laranja  e a incoporação de alguns elementos do arquirrival Feyenoord que o estilo de jogo holandês batizado como futebol total passou a influenciar o modo de jogar no mundo inteiro nos anos posteriores.

  Desde então aspectos como a pressão alta,  capacidade atlética, a multifunção, e sobretudo  velocidade em ações ofensivas e defensivas, passaram a fazer parte da cartilha de futebol moderno.Este tipo de pós-analise no entanto deixa de lado um aspecto fundamental que servia de alicerce ao carrossel Holandês: a qualidade tecnica de seus integrantes.A equipe  de Michels contava com jogadores tecnicamente acima da média em quase todas as posições,Neeskens, Van Hanegem, Krol, Cruyff por exemplo todos embora atleticamente muito capazes,dotados de capacidade tecnica ainda maior, utilizando-se do cérebro antes de acionar os músculos.

  É inegável nos tempos atuais a importância do aspecto físico sobretudo a velocidade necessária a qualquer atleta profissional de futebol, jogadores velozes sempre foram armas secretas capazes de mudar os destinos de uma partida, atualmente essa capacidade foi elevada a um nível ainda mais alto, as arrancadas de Cristiano Ronaldo, Arjen Robben, Neymar,etc, o futebol coletivo sempre velocista do Arsenal e seus jovens, e inúmeras outras equipes que pouco diferenciam as fases ofensiva e defensiva, com seus atletas mais ofensivos recuando para marcar o adversário no campo de defesa, e no instante seguinte saindo em velocidade para  finalizar a jogada no campo ofensivo,são argumentos irrefutáveis da importância do bom preparo fisíco, que aos poucos foi engolindo jogadores ditos lentos, sobretudo na europa, e aos poucos matando funções especificas como por exemplo o nosso velho centroavante típico, o camisa 9 fazedor de gols, excelente na arte de mandar a bola às redes, mas pouco participativo coletivamente.

  Embora em equipes pequenas e médias do cenário europeu este tipo de jogador ainda tente resistir, é dificil notar atletas com este perfil nas equipes maiores, que preferem atuar com uma dupla de velocistas ou até mesmo no ”moderno” 4-2-3-1 com apenas um atacante de movimentação, em muitos jogos o Manchester de Ferguson atuou com o português Cristiano Ronaldo como atacante, Arshavin no Arsenal também executou tal função bem como Messi no Barcelona, onde o "centro-avante classico" Ibrahimovic não conseguiu se encaixar, também em função do modelo de jogo catalão, completamente baseado na escola holandesa, obra de seu “salvador” Johan Cruyff.

  A melhor definição desta transicão sofrida pelo esporte bretão, é dada pelo atual diretor de futebol do Real Madrid, e eterno estudioso e filosofo da bola Jorge Valdano em suas palavras, o futebol pode ser dividido entre a Era Fotográfica em que cada jogador mantinha uma posição fixa e esperava a bola a seus pés, e depois na Era cinematografica, com seus interpretes em constante movimentação.

  Apesar de sua importância, o futebol e seu mundo particular onde nem sempre a lógica do mundo real funciona, a velocidade continua não sendo o fator primordial para julgar a capacidade de um jogador, mesmo com enorme velocidade, o mundo ainda se rende quando Lionel Messi reduz a passada, e utiliza-se de seu vasto reportório técnico para ultrapassar um adversário, ou ainda com as jogadas cerebrais de Xavi Hernandes e seus passes à la Gerson, fruto de sua enorme capacidade de leitura de jogo.Em entrevista  ao site ajax-usa, Kees Zwamborn diretor da renomada categoria de base do Ajax denominada  “de Toekemost” o futuro em holandês, e reconhecida pela Uefa como a melhor escola de formação de jogadores da Europa,explica o sistema TIPS empregado pela equipe de Amsterdam na formação de atletas:

   T é a capacidade técnica, I é a inteligência tática, a capacidade de movimentação individual e coletiva,ler o jogo, P é personalidade, quesito difícil de avaliar em alguem tão jovem segundo Zwamborn, e por ultimo S velocidade(em inglês Speed), neste ponto o diretor faz uma observação: não a velocidade de um corredor dos 100 metros, mas a velocidade com a bola, algo diferente de ser feito.


  Este é um aspecto chave, antes de correr é necessário que se tenha a qualidade de manter a posse da bola em corrida, e a capacidade mental de saber porque correr,quando e para onde, para que a ação não acabe por se tornar uma prova de atletismo.  

  Maior símbolo da formação Ajacied, Johan Cruyff que entrou nas as escolas de formação do Ajax aos dez anos, para se tornar o maior jogador europeu de todos os tempos, resume a importância da velocidade no futebol com duas frases brilhantes:

“ Quando se vê um jogador arrancando, é porque saiu tarde demais” ,

“Se eu começar a correr um pouco mais cedo, vou parecer mais rápido”,

  A qualidade técnica e a capacidade mental ainda estão acima de qualquer outro aspecto neste mundo à parte que é o futebol, diferente de qualquer outro esporte, o maior jogador desta geração por exemplo, Zinedine Zidane, jamais foi reconhecido por sua capacidade atlética, mas sim pela sua poética lentidão de movimentos artisticos, capazes de encantar torcidas pelo mundo afora com o minimo de esforço, utilizando-se primeiro do raciocinio, da cabeça como exigia Cruyff,  afinal dentro de campo a questão não é quem corre mais, mas sim quem pensa mais rápido.