segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Mudar ou não mudar? eis a questão!

A encruzilhada Corinthiana
 
  O Corinthians encontra-se neste momento em um dilema existencial, que neste campeonato pode ser a diferença entre a conquista do título ou não. O grande cerne da dúvida alvinegra é lidar com a incapacidade do elenco em suprir a ausência de dois jogadores vitais ao modelo de jogo implantado por seu idealizador Mano Menezes.


  E este teorico problema não passa apenas pela qualidade tecnica de alguns de seus componentes, mas acima de tudo, pelas caracteristicas individuais e de movimentação que os mesmos podem oferecer à equipe, exigindo outro tipo de abordagem ao jogo.O modelo de Mano baseava-se em uma defesa recuada, aproveitando ao máximo a boa capacidade de leitura de jogo de William, aliada a capacidade de Chicão em efetuar a marcação do atacante adversário de maneira mais direta. Nas laterais, Alessandro e Roberto Carlos, ofereciam suporte à linha defensiva através de sua boa capacidade de posicionamento.


  Protegidos por uma dupla de volantes mais tática, ocupada  primeiro  em tarefas defensivas, a equipe de Parque São Jorge partia para o  campo com uma consistência defensiva  impressionante,muito embora a fase ofensiva acabasse prejudicada pelo posicionamento recuado de sua defesa e meio campo.Em busca do equilibrio e melhor aproveitamento do espaço criando no campo adversário, consequência natural deste tipo de abordagem, Mano utilizava a velocidade de Dentinho e Jorge Henrique para executar a transição ofensiva, com bom resultado prático.


  Uma vez recuperada a bola, a saída para o ataque logo buscava suas duas flechas, abertas pelos lados do campo, no 4-2-3-1 do atual treinador da Selecao Brasileira. O centroavante e o meia central desta forma, tornavam-se meros coadjuvantes tanto de Dentinho quanto de Jorge Henrique, pelo modelo de passes rapidos e diretos, com a simples função de abrir espaços e ou servir de ponto de referência às tabelas, a ausência de Ronaldo que certamente oferece um algo a mais por sua indiscutivel capacidade tecnica, fazia-se menos sentida, e até mesmo o criticado Souza cumpria sua função, sem causar grandes problemas enquanto os resultados eram favoráveis.


  A saída de Mano para a o comando da seleção nacional, foi certamente uma grande perda para o Corinthians,pelo seu grande conhecimento do elenco por ele montado,e seu excelente relacionamento com os atletas, no entanto o fator fundamental para a turbulência vivida pela equipe, foi a perda de suas duas principais armas de ataque, Dentinho e Jorge Henrique, sem que no elenco existissem jogadores com a mesma capacidade de acelerar o jogo, e excutar   movimentacao semelhante a da dupla titular. O argentino Defederico em teoria seria o mais indicado a suprir tal exigência, o que se viu no entanto  dentro de campo em muitas de suas participações foi a teoria indo por água abaixo.

  Adilson Batista que assumira  o comando com a equipe na liderança, viu-se obrigado a buscar alternativas, mas ao invés de efetuar mudanças no sistema tático, resolveu modificar  algo muito maior, o modelo de jogo, um conceito absolutamente inegociável em qualquer equipe  durante a disputa de um campeonato sem que os riscos se apresentem.Adepto de um futebol mais ofensivo, com passes menos horizontais e mais verticais, sempre em busca da profundidade, Adilson adiantou a linha defensiva, e exigiu maior participação ofensiva de sua dupla de volantes, que constantemente eram vistos em ações ofensivas tentando reduzir desta forma a dependência do jogo pelas pontas devido a pouca capacidade dos jogadores que nelas se encontravam em decidir jogos.


  Em disputas contra equipes semelhantes, voltadas ao ataque assim como o "novo corinthians" , o modelo de Adilson conseguia encontrar os espacos necessários para se desenvolver como na brilhante atuação diante do entao líder Fluminense em pleno Engenhão, ainda no primeiro turno,quando seus jogadores efetuaram uma das exibições mais conscientes taticamente que uma equipe pode apresentar.


  O efeito negativo da "revolução de Batista", foi notado diante de adversários mais fechados que ofereciam pouco espaco em seu campo defensivo pelo seu posicionamento recuado, e como fator chave,  buscando contra-ataques com grande velocidade, desta forma clara vantagem diante da pouca aceleração do setor defensivo corinthiano, e sua baixa capacidade de recuperacao.A mudança no modelo de jogo cobrou seu preço na transição defensiva, exposta de maneira didática no último jogo de Adilson como técnico alvinegro, a derrota por 4 a 3 diante do Atletico Goianiense no Pacaembu.


  O novo comandante Tite, logo retornou a equipe à seu modelo original, e busca compensar a deficiência do elenco pelo caminho mais seguro, a simples alteração do  sistema de jogo, em seus primeiros jogos o 4-4-2 em losango foi o esquema adotado pelo técnico nesta que é sua segunda passagem no comando da equipe de Parque Sao Jorge, mantendo a proteção à defesa recuada, e o jogo mais sólido.O Corinthians de Tite, tenta basear seu jogo na capacidade tecnica do meia Bruno César, e criar novas rotinas de movimentação como solução ofensiva, tendo como pilar a segurança defensiva do modelo Mano Menezes, isto em meio a disputa do título brasileiro mais diretamente contra Cruzeiro e Fluminense, por isto impedido de errar.Preso à um modelo de jogo pouco efetivo sem seus grandes interpretes, a impossibilidade de trocá-lo pela deficiência na formação do elenco que não oferece grandes possibilidades de mudança , o gaucho Adenor Leonardo Bacchi,nascido em Caxias, tem uma missão trabalhosa pela frente, cabe no entanto, o alento  de estar  no clube certo para uma tarefa quase "Herculeana", afinal como dizem os seus próprios torcedores, no Corinthians nada é conquistado sem uma boa dose de sofrimento.

A Era da Velocidade

“...Criamos a época da velocidade mas nos sentimos enclausurados dentro dela...”, esta minima frase extraída do belo discurso humanista proferido por Charlie Chaplin na cena final do filme “ O grande ditador”, pode muito bem ser utilizada para entender o futebol atual, é claro que o discurso do barbeiro em filme escrito,dirigido,produzido e estrelado pelo gênio Chaplin, é muito mais complexo  profundo e social do que uma simples análise futebolistica, um discurso em favor do homem, um apelo a sua razão e consciência, e até mesmo profético em muitos aspectos como no pensamento:

“ ...mais do que máquinas, precisamos de humanidade,mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura.Sem essas virtudes a vida se tornará violenta e tudo será perdido...”

  No mundo futebolistico, entendido como expressão cultural e por isto reflexo da sociedade, a velocidade e esta prisão citada por um dos maiores génios  da história humana, também podem ser notadas. Quando assistimos à jogos mais antigos até o começo da década de 70 mais ou menos, somos transportados a um jogo quase em camera lenta, marcado pelo enorme tempo entre um jogador receber o passe e o adversário chegar para marca-lo, são notótios por exemplo os lançamentos sempre muito calculados e bem pré-planejados do “canhotinha de ouro” Gerson, na brilhante seleção brasileira da copa de 70 que encantou o planeta.

  Aqui trata-se apenas de uma constatação com relação a velocidade do jogo, e não um questionamento à qualidade dos jogadores, sua capacidade técnica, ou ainda pior um argumento favorável a eterna discussão  se os craques do passado jogariam no futebol atual, algo certamente descabido, pois uma das especificidades do futebol que o difere de qualquer outro esporte é sua total ausência de segregação, também  por questões fisicas, afinal como bem diz Johan Cruyff :“o futebol é um jogo para ser jogado com a cabeça”, assim os jogadores técnicos do passado seriam capazes de praticar o esporte em qualquer época exatamente por sua qualidade, tendo apenas de adequar-se as novas exigências fisicas.

  O rompimento do futebol dito do passado com o moderno, é marcado definitivamente pela aparição em 1974 da “Laranja Mecânica”, a seleção Holandesa que disputou a copa do mundo na Alemanha formada por craques como Neeskens,Rep,Haan,Suurbier,Krol,e num degrau acima Johan Cruijff,  comandados pelo maior técnico de futebol da história segundo a Fifa: Rinus Michels. Baseada em um estilo técnico aliado a uma enorme capacidade física que permitia a seus jogadores trocar de posições,executar mais de uma função, e sobretudo pressionar os adversários em seus campo, roubando-lhes a bola e saindo para jogar com uma velocidade até então nuca vista em um campo de futebol.

  Embora o embrião desta fantástica equipe tenha sido o Ajax de Amsterdam dirigido pelo próprio Michels que assombrou a europa no fim dos anos 60 começo da década de 70, foi com a camisa laranja  e a incoporação de alguns elementos do arquirrival Feyenoord que o estilo de jogo holandês batizado como futebol total passou a influenciar o modo de jogar no mundo inteiro nos anos posteriores.

  Desde então aspectos como a pressão alta,  capacidade atlética, a multifunção, e sobretudo  velocidade em ações ofensivas e defensivas, passaram a fazer parte da cartilha de futebol moderno.Este tipo de pós-analise no entanto deixa de lado um aspecto fundamental que servia de alicerce ao carrossel Holandês: a qualidade tecnica de seus integrantes.A equipe  de Michels contava com jogadores tecnicamente acima da média em quase todas as posições,Neeskens, Van Hanegem, Krol, Cruyff por exemplo todos embora atleticamente muito capazes,dotados de capacidade tecnica ainda maior, utilizando-se do cérebro antes de acionar os músculos.

  É inegável nos tempos atuais a importância do aspecto físico sobretudo a velocidade necessária a qualquer atleta profissional de futebol, jogadores velozes sempre foram armas secretas capazes de mudar os destinos de uma partida, atualmente essa capacidade foi elevada a um nível ainda mais alto, as arrancadas de Cristiano Ronaldo, Arjen Robben, Neymar,etc, o futebol coletivo sempre velocista do Arsenal e seus jovens, e inúmeras outras equipes que pouco diferenciam as fases ofensiva e defensiva, com seus atletas mais ofensivos recuando para marcar o adversário no campo de defesa, e no instante seguinte saindo em velocidade para  finalizar a jogada no campo ofensivo,são argumentos irrefutáveis da importância do bom preparo fisíco, que aos poucos foi engolindo jogadores ditos lentos, sobretudo na europa, e aos poucos matando funções especificas como por exemplo o nosso velho centroavante típico, o camisa 9 fazedor de gols, excelente na arte de mandar a bola às redes, mas pouco participativo coletivamente.

  Embora em equipes pequenas e médias do cenário europeu este tipo de jogador ainda tente resistir, é dificil notar atletas com este perfil nas equipes maiores, que preferem atuar com uma dupla de velocistas ou até mesmo no ”moderno” 4-2-3-1 com apenas um atacante de movimentação, em muitos jogos o Manchester de Ferguson atuou com o português Cristiano Ronaldo como atacante, Arshavin no Arsenal também executou tal função bem como Messi no Barcelona, onde o "centro-avante classico" Ibrahimovic não conseguiu se encaixar, também em função do modelo de jogo catalão, completamente baseado na escola holandesa, obra de seu “salvador” Johan Cruyff.

  A melhor definição desta transicão sofrida pelo esporte bretão, é dada pelo atual diretor de futebol do Real Madrid, e eterno estudioso e filosofo da bola Jorge Valdano em suas palavras, o futebol pode ser dividido entre a Era Fotográfica em que cada jogador mantinha uma posição fixa e esperava a bola a seus pés, e depois na Era cinematografica, com seus interpretes em constante movimentação.

  Apesar de sua importância, o futebol e seu mundo particular onde nem sempre a lógica do mundo real funciona, a velocidade continua não sendo o fator primordial para julgar a capacidade de um jogador, mesmo com enorme velocidade, o mundo ainda se rende quando Lionel Messi reduz a passada, e utiliza-se de seu vasto reportório técnico para ultrapassar um adversário, ou ainda com as jogadas cerebrais de Xavi Hernandes e seus passes à la Gerson, fruto de sua enorme capacidade de leitura de jogo.Em entrevista  ao site ajax-usa, Kees Zwamborn diretor da renomada categoria de base do Ajax denominada  “de Toekemost” o futuro em holandês, e reconhecida pela Uefa como a melhor escola de formação de jogadores da Europa,explica o sistema TIPS empregado pela equipe de Amsterdam na formação de atletas:

   T é a capacidade técnica, I é a inteligência tática, a capacidade de movimentação individual e coletiva,ler o jogo, P é personalidade, quesito difícil de avaliar em alguem tão jovem segundo Zwamborn, e por ultimo S velocidade(em inglês Speed), neste ponto o diretor faz uma observação: não a velocidade de um corredor dos 100 metros, mas a velocidade com a bola, algo diferente de ser feito.


  Este é um aspecto chave, antes de correr é necessário que se tenha a qualidade de manter a posse da bola em corrida, e a capacidade mental de saber porque correr,quando e para onde, para que a ação não acabe por se tornar uma prova de atletismo.  

  Maior símbolo da formação Ajacied, Johan Cruyff que entrou nas as escolas de formação do Ajax aos dez anos, para se tornar o maior jogador europeu de todos os tempos, resume a importância da velocidade no futebol com duas frases brilhantes:

“ Quando se vê um jogador arrancando, é porque saiu tarde demais” ,

“Se eu começar a correr um pouco mais cedo, vou parecer mais rápido”,

  A qualidade técnica e a capacidade mental ainda estão acima de qualquer outro aspecto neste mundo à parte que é o futebol, diferente de qualquer outro esporte, o maior jogador desta geração por exemplo, Zinedine Zidane, jamais foi reconhecido por sua capacidade atlética, mas sim pela sua poética lentidão de movimentos artisticos, capazes de encantar torcidas pelo mundo afora com o minimo de esforço, utilizando-se primeiro do raciocinio, da cabeça como exigia Cruyff,  afinal dentro de campo a questão não é quem corre mais, mas sim quem pensa mais rápido.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Flamengo 1 x 1 Corinthians

  O clássico das duas maiores torcidas do Brasil acabou com placar empatado diante de apenas nove mil torcedores que aceitaram o desafio: Ir ao engenhão, assitir a uma partida marcada para às dez horas da noite em plena quarta-feira, com transmissão da TV aberta, com termino previsto para a meia noite.

  Dentro de campo sob o ponto de vista tecnico, um jogo ainda menos atrativo, com pouca emoção, muitos lances errados e poucos gols, sob um prisma tático a partida foi interessante em função das variações criadas pelas alterações de Vanderlei Luxemburgo, enquanto seu colega de profissão Tite,ainda em inicio de trabalho sendo este apenas seu segundo jogo à frente do Corinthians neste retorno, parece neste momento apostar muito mais em não perder do que na imediata disputa do título.

  O quadro ao lado mostra a disposição tática proposta pelos dois treinadores, um sistema de jogo similar o 4-4-2 em losango, a diferença entre ambos no entanto era causada pela caracteristica e movimentação individual de alguns jogadores sobretudo  daqueles que  ocuparam o vertice ofensivo do losango: Bruno César pelo Corinthians e Diogo pelo Flamengo. O camisa 10 corinthiano em caracteristica é exatamente aquilo que se espera de um jogador que carrega o número mais famoso do futebol, e ocupa este setor, atuando como elo de ligação entre o meio e o ataque, buscando tabelas, infiltrações, etc, organizando o jogo de um ponto central; enquanto o  atleta flamenguista adapatado por Luxemburgo em razão da baixa capacidade física de Petkovic e a pouca capacidade técnica de Kléberson para exercer a função, é por formação um segundo atacante, ou um ponta de lança, muito mais voltado para a finalização, exigindo desta forma outro tipo de movimentação de seus companheiros de meio campo e ataque.

  Montado no esquema preferencial de seu técnico, o Flamengo foi capaz de colocar em prática também os principios de jogo indeléveis da filosofia Vanderlei Luxemburgo: posse, circulação de bola, passes curtos e ofensividade. Assim com o controle da bola, ajudado pela estratégia corinthiana em primeiro tentar não deixar o flamengo jogar, recuando o máximo possível para então explorar possíveis contra-ataques  e quem sabe ganhar o jogo em contra ataque, a equipe carioca ditou as ações do jogo, de maneira notória nos primeiros 45 minutos, com a dupla de ataque Deivid e Diego Mauricio abrindo em direção as laterais na tentativa de criar espaço também para a infiltração de Diogo. A movimentação do trio ofensivo oferecia espaço para o trabalho dos meio campistas  Willians e Renato, este ultimo com enorme tempo de bola, revezava ações pelo meio com deslocamentos para a faixa esquerda, executando bons passes e até mesmo um belissimo cruzamento baixo muito técnico e preciso que acabou salvo pela defesa corinthiana.

  Willians um bom meia/volante “box-to-box” como denominam os europeus um volante com chegada à frente, acabou exposto em uma de suas grandes fraquezas, qual seja  a precisão de passe, com muito espaço para efetuar a leitura de jogo e executar um passe preciso, mas nem tanto para correr com a bola ou mesmo sem ela em direção ao gol adversário, o ex–jogador do Santo André, acabou sendo substituido em uma leitura perfeita de Luxemburgo, que optou pela entrada de Correa, muito mais capacitado em termos de passes e visão do jogo.

  Outra boa substituição do técnico carioca, esta efetuada já na volta do intervalo, foi a troca de Deivid, completamente fora de sintonia tática, posicionando-se inúmeras vezes de maneira equivocada, muito próximo ao meio campo e centralizado, por Marquinhos meia que foi  jogar aberto pela esquerda em cima do lateral Corinthiano Alessandro, tentando abrir a fechada defesa  paulista, para os flamenguistas o efeito colateral negativo da troca  foi o reposicionamento exigido à Renato, que passou a atuar mais em direção ao gol, perdendo a equipe muito de sua capacidade de organização,e passes com qualidade, visto que Marquinhos um jogador de velocidade foi controlado de maneira bem sucedida pelo lateral corinthiano.

  Sem poder com suas duas principais armas de velocidade Dentinho e Jorge Henrique, o Corinthians sofre muito na transição ofensiva, tornando-se dependente da capacidade de Bruno César em criar lances para finalização, e neste caso a também a capacidade técnica de Ronaldo torna-se  vital para manter viva a chance de título. Em um lance da dupla o Corinthians conseguiu o que tanto desejava, um gol de vantagem com passe de primeira de Bruno César e finalização precisa do maior artilheiro na história da Copa do Mundo, importante também a movimentação de Elias adaptando-se ao novo sistema assim como a chegada em apoio de Ralf.

  O gol do Flamengo em jogada de escanteio, parecia a consequência natural do volume de jogo apresentado pela equipe carioca, Luxemburgo ainda tentou o gol da vitória mandando a campo o centroavante clássico Val Baiano segundo suas próprias impressões muito limitado tecnicamente mas fazedor de gols, no entanto o aspecto mais estranho deste jogo foi a decisão de Tite em retirar de campo sua melhor opção  para lances de contra-ataque, o meia Bruno César, mandando a campo o volante Paulinho, para mais tarde tentar reverter a situação com a entrada do Argentino Defederico no lugar de Elias e Danilo na vaga de Iarley, o empate parece ter satisfeito a equipe Corinthiana um resultado aceitável pela grandeza de ambas equipes, e certamente satisfatório para a estratégia utilizada neste jogo  pelo recém chegado treinador gaúcho, porém não condizente com as pretensões de um candidato ao título.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Real 2 x 0 Milan

  A expectativa era grande, o primeiro grande clássico da Liga dos Campeões nesta temporada, em campo nada menos que 16 títulos da competição continental, 9 do lado “blanco”, e 7  “rossoneras”,duas equipes com jogadores excepcionais, um dos maiores técnicos dos ultimos tempos, em ação e  no entanto o que se viu em campo, foi um jogo unilateral, dominado pelo Real Madrid de José Mourinho, e que após os dois gols marcados em sequência, um aos 13’ minutos em cobrança de falta de Cristiano Ronaldo e o outro aos 14’ através de chute de Ozil, passou a administrar a vantagem, diante de um Milan impotente e superado taticamente ainda muito longe de justificar todo o peso de sua camisa.

  Mourinho montou sua equipe exatamente como era previsto, em um teórico 4-2-3-1, que na verdade pela movimentação de Ozil  na prática funciona como um 4-4-2, utilizando-se de uma linha defensiva alta, reduzindo o campo e efetuando uma pressão constante na envelhecida e estática equipe Milanista.

Posicionamento tatico Real x Milan
  O quadro ao lado mostra o posicionamento das esquipes no primeiro tempo, Ronaldo atuando na “ponta esquerda” constantemente corria com a bola dominada em direção à linha de fundo para cima do veterano Zambrotta, que recebia o apoio defensivo de Gattuso,mesmo assim, inumeras vezes o português levou vantagem, criando espaço no meio campo , e sobretudo na defesa adversária.

  Aos poucos o jogador mais caro da história do futebol, foi alternando sua movimentação, ora em direção ao fundo, ora cortando em diagonal, na intenção de confundir a marcação.Pelo lado oposto o argentino Di Maria, jogando um pouco mais recuado em relação a Ronaldo, a todo momento puxava a bola para sua melhor perna: a esquerda, exigindo uma saída de posição do seu marcador Antonini, espaço este que era ocupado por movimentação de Higuaín, jogada já tradicional deste novo Real Madrid modelo Jose Mourinho, permitindo a infiltração de Ozil.

  O posicionamento do meia Alemão, é um dos grandes fatores de desequilibrio neste começo de temporada, e isto pode ser visto com grande efeito neste jogo, atuando entre a linha de volantes e de zagueiros do adversário, o agil camisa 23 do Real, causa enorme confusão na definição da marcação, tal função é responsabilidade do volante mais próximo, ou de um dos zagueiros? No caso do Milan com seus zagueiros tão ocupados, e com Gattuso o teorico volante mais tradicional posicionado mais a direita ocupado com Cristiano Ronaldo, a dura tarefa reacairia sobre Pirlo, que mesmo no auge de sua carreira nunca foi reconhecido como um grande marcador.

  Desta forma livre para exibir toda sua técnica, Mesut Ozil, pode influenciar diretamente na vitória Madrilenha. Destaque negativo para a tentativa de Massimiliano Allegri em escalar Seedorf, Ronaldinho, Pirlo e Gatusso no meio campo diante de um adversário muito mais rápido, tanto em ações ofensivas quanto defensivas,e muito superior a qualquer outro oponente que o Milan tenha enfrentado neste principio de temporadaseja na propria compertição européia ou na Série-A italiana,  Ronaldinho perdido logo acima dos volantes madridistas, teve espaço para executar algumas boas jogadas, mas com a dupla de atacantes tão bem marcada e fazendo inversão de lados algumas vezes, seus passes quase sempre eram interceptados.

  Em muitas ocasiões, o 4-3-1-2 de Allegri via seus três homens de meio campo em linha, com grande distância entre estes e os três homens de ataque, facilitando a ação defensiva da linha recuada do Real, muito bem postada, e com grande capacidade atlética  também em seus dois zagueiros Pepe e Ricardo Carvalho. Tal situação apenas era amenizada quando Seedorf em posse da bola seguia em direção ao campo de ataque, sendo marcado por Khedira.

  Depois de conseguir a vantagem o Real recuou um pouco suas linhas e permitiu ao Milan maior tempo com a bola, no entanto com a eficiente pressão realizada por seus atletas, assim que  esta era recuperada, o jogador de branco que a tinha nos pés, logo buscava um passe longo em profundidade, tanto para Ronaldo quanto para Di Maria, para que estes utilizassem a velocidade contra a terrívelmente lenta e mal postada defesa Milanista, exposta pela distância entre as linhas cada vez maior.

  O Real poderia ter ampliado a vantagem, assim como o Milan poderia ter marcado um gol em um lance brilhante de Ronaldinho que acabou desperdiçado por Seedorf, no entanto o jogo seguiu já sem grande expectativas no segundo tempo, e as alterações conservadoras de Allegri efetuando a simples troca de um jogador por outro para executar  a mesma função sem buscar alternativas táticas, acabou selando uma vitória 
tranquila de José Mourinho e seu Real Madrid menos galático e mais efetivo.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Liverpool, a morte da Alma.

  Na semana em que uma corte de justiça define os rumos do clube com maior numero de conquistas no futebol Inglês, passando-o das mãos de um grupo americano para outro, salta à mente a história do Liverpool Football Club, não apenas um clube, mas um estado de espírito.

  A história vitoriosa dos Reds, começa a ser construída em 1959 quando o lendário Bill Shankly assume o comando técnico de uma equipe em declinio, repleta de jogadores sem talento  e na segunda divisão. Seu primeiro ato  em conjunto com sua equipe técnica dentre os quais Bob Paisley, é  mostrar a porta da rua a nada menos do que vinte e quatro  jogadores do elenco, para que desta maneira possa cumprir seu projeto de transformar o Liverpool na maior equipe do mundo.

  Aos poucos nasce um dos maiores segredos perpetuados em Anfiel Road, o “Boot Room” o segredo dos vestários; Shankly contratava  jogadores ainda muito jovens e muitas vezes  os deixava  treinando na equipe reserva do Liverpool, para aprenderem o “Liverpool Spirit” o espírito do Liverpool, e mais tarde assumir o lugar dos ídolos quando estes  abandonassem os gramados.

  Sujeito simples, filho de operários o mitico treinador Escocês jamais perdeu seus hábitos mesmo com a fama e o dinheiro, conta-se que quando algum torcedor pedia seu autógrafo, Sir Shankly o convidava para entrar em sua casa e tomar um chá com bolachas, adorava discutir com o visitante as questões táticas do time.Em suas palavras um pouco de sua filosofia: 


  “O socialismo, acredito eu não é realmente política, é um modo de vida, é humanidade.Creio que o único meio de viver e obter verdadeiro  sucesso é pelo esforço coletivo, com cada um trabalhando pelo outro, um ajudando ao outro, e todos com direito a uma parte da recompensa no final do dia. Isto pode ser pedir muito, mas é assim que vejo o futebol e a vida.”

  Em 74, depois de fundar as bases para a o futuro, com três títulos da primeira divisão e uma equipe espetacular liderada em campo por Kevin Keegan e John Toschak se o mitico treinador se retira do futebol, com a única tristeza de nunca ter ganho a então Taça dos Campeões,entregando o comando técnico a seu auxiliar Bob Paisley.

  Com Paisley, o Liverpool conhece sua fase aurea na competição Européia tão desejada por Shankly, mantendo o “espirito do Liverpool” com o auxilio da mistica do “Boot Room”, o antigo auxiliar altera apenas alguns principios no modelo de seu mestre, optando por um futebol mais apoiado, com posse de bola e troca de passes, necessários em sua visão no confronto com as equipes do continente; em nove anos sob seu comando os torcedores festejam seis títulos da primeira divisão inglesa, e mais importante três taças dos campeões.

  Em campo um escocês contratado junto ao Celtic, recebe  a dura missão de assumir a lendária camisa 7 e o posto de ídolo deixado por Kevin Keegan transferido para o Hamburgo em 77, seu nome é Kenny Dalglish, difere do antigo ídolo no entanto por ser menos emotivo,e mais cerebral, esquadrinhando o campo como  um robô, e então executando passes com a beleza de um artista desenhando sua obra .Mais tarde  chega o momento de substituir outro ídolo, John Toschak, e para tal Paisley decide apostar em um jovem galês de 19 anos, seu nome Ian Rush o homem que apresenta à “The Kop” a histórica arquibancada situada atrás do gol em Anfield Road, a sublime arte de marcar gols, 139 em 224 jogos de sua primeira passagem com a camisa vermelha.

  Em 84 sob o comando de outro ex-assistente de Shankly, desta vez Joe Fagan a conquista de mais uma taça dos campeões, liderado em campo por Graeme Souness,  mais uma vez chama atenção o espirito quase sobrenatural da equipe e sua torcida, deixando a certeza de que para jogar no Liverpool, é preciso muito mais do que ser apenas um bom jogador, é necessário que se tenha a alma dos reds, moldada no segredos do “Boot Room”.

  Depois dos horrores da noite em Heysel, e os longos cinco anos longe de competições européias imposta à todos os clubes Ingleses, o Liverpool já não era o mesmo, o ídolo Dalglish assumiu a função de jogador-treinador em 85, permanecendo até 91  quando passa o controle a outro ex-ídolo, Graeme Souness, e aos poucos o clube começa a deixar de lado sus filosofia,aderindo aos novos tempos, contratando inumeros jogadores alheios ao seu misticismo e suas tradições, até a ruptura definitiva com o modelo de seu guia espiritual Shankly, a contratação do técnico francês Gerrad Houllier em 1998.

  Tempos dificeis, até um suspiro de esperança com a milagrosa conquista da atual Liga dos Campeões  no chamado “Milagre de Istambul” em 2005 ao som de “You’ll never walk alone”, a quinta de sua história, marcada pela entrega de seu capitão Steven Gerrard formado no próprio clube, herdeiro do espirito sagrado,fazendo muitos relembrarem as gloriosas noites de Anfiel Road, e alçando o técnico Rafa Benitez ao olimpo sagrado.Nos anos seguintes porém, com uma infinidade de jogadores espanhois apenas esforçados, unidos a uma verdadeira torre de Babel , o Liverpool vendido em 2006 aos americanos  Tom Hicks e Geoge Gillett, mergulha em uma grave crise existencial,afastando-se cada vez mais de sua essência, entregando  sua alma aos engravatados do dito futebol moderno.

  A esperança e o caminho é que os Reds retornem às suas raízes ensinando as novas gerações o que é fazer parte da religião de Alfield, antes de  qualquer coisa, um estado de espirito, afinal como canta “The Kop” em um ritual sagrado:

 “Quando andar por uma tempestade, mantenha sua cabeça erguida, e não tenha medo da escuridão... caminhe através do vento e da chuva, mesmo que seus sonhos tenham sido jogados e perdidos, caminhe e você jamais caminhará sozinho....”


terça-feira, 12 de outubro de 2010

Luxemburgo e Ferguson, dois mundos diferentes.

 George Best ídolo meio craque e meio louco do Manchester United nos anos 60, conta em “Blessed” , que se escondia toda vez que via o mítico treinador Matt Busby apontar com seu jaguar encaminhando-se  em direção ao treino, o fazia por medo que Busby lhe oferecesse carona, o que diria ao lado dele? Perguntava a si mesmo.

  Tal tipo de situação atualmente  parece cada dia mais distante de  nossa realidade, garotos com seus egos inflados por empresários , ancorados em contratos milionários, capas de revista, e uma  infinidade de regalias e proteções por seu “valor comercial”, colocam-se em posição superior a qualquer clube, treinador, ou instituição, e com apoio de muitos seguem acreditando no direito em fazer tudo de acordo com suas vontades.

  Ouço Vanderlei Luxemburgo explicar as razões da falta de sucesso de seu “projeto” no Atlético Mineiro, e dentre uma série de fatores, quase em sua totalidade ligadas a fatores alheios à suas próprias decisões, um chama a atenção.Explica como sua tentativa em copiar o modelo de Alex Ferguson no Manchester United, que segundo suas palavras, treina a equipe apenas as sextas-feiras,  entregando a função à seus assistentes nos outros dias da semana, assumindo o controle total no dia do jogo.

  Revela ainda Luxemburgo, suas avaliações deste modelo: Alex Ferguson não funcionaria no Brasil, pois  os jogadores brasileiros não estão acostumados a receber ordens dos auxiliares, exigem a figura do treinador nos trabalhos diários.

  Difícil  discordar de alguns pontos nesta avaliação do atual técnico do Flamengo,sobretudo sobre a  diferença cultural entre jogadores, sob este prima, existe um entorno cutural gigantesco a separar Vanderlei e seu companheiro de profissão Alex Ferguson.O escocês, após mais de vinte anos no comando do Manchester United, tido como lenda, é a própria representação dos red devils,tal estatuto lhe permite delegar aos seus auxiliares o controle da equipe, pelo simples fato de estes carregarem consigo total confiança do comandante.

  O respeito a figura de Ferguson, como o de George Best à Matt Busby, é resultado da aura mistica criada em torno de alguem que se confunde com clube, qualquer desrespeito ou questioanamento a este simbolo, é um insulto a propria instituição.Conta Sir Ferguson em “Managing My Life” sua biografia, que um dia andando pelo clube, um garoto das categorias de base do Manchester, com no máximo 16 anos chamou-o de Alex, assim naturalmente, sua reação espantada foi aspera: “Sou seu amigo de escola?”, não respondeu o garoto, “Pois bem, trate-me por Mister Ferguson ou Chefe”, “como é possivel, Olá Alex!, 16 anos de idade!...”, resmungou o comandante incrédulo com o ocorrido.

  Esta é uma das principais diferenças entre os mundos futebolisticos em que vivem Wanderley Luxemburgo e Alex Ferguson, a forma que cada um lida com seus jogadores, e como estes por sua vez os tratam.A relação profissional exigida na cultura Inglesa, se opõe a maioria das relações pai e filho estabelecida na brasileira, não se trata de melhor ou pior, apenas de formação cultural diferente.

domingo, 10 de outubro de 2010

O Mundo é uma bola!

Uma viagem pelas diferentes culturas futebolisticas.
  
O futebol é mais do que um simples esporte coletivo, ou como o senso comum insiste em classificar “o ópio do povo”. Em noventa minutos presenciamos uma das maiores formas de expressão cultural de um povo, seus valores, suas histórias, sua forma de vida.

  Embora existam várias terorias sobre  o local de seu nascimento, foi na Inglaterra que sua sistematização aconteceu. Distantes dos esportes elitistas, e suas exigências dispendiosas a grande massa optava pela prática do “Football”, um jogo sem custos e sobretudo livre de qualquer tipo de segregação.Exatamente por esta ligação com as camadas populares, e sua facilidade o jogo começou a ser difundido pelo mundo fosse através de marinheiros ingleses que aportavam em outras nações e relembravam sua patria mãe pela prática , ou ainda por visitantes que aprendiam em terra inglesas e regressavam com uma certa idéia para casa, como aconteceu no Brasil de Charles Muller.

  Após a difusão, o esporte novamente era absorvido pelas grandes massas da sociedade em que fora inserido, com suas caracteristicas culturais únicas sendo acrescentadas na forma de jogar e em sua meneira de encarar o Futebol.Marcados pelas lutas de classes, pela opressão e exclusão social, os britânicos desenvolvem seu “Kick and Rush”, o chuta e corre, que embora atenuado nos ultimos anos pelo Arsenal de Wenger e seu futebol técnico, o Manchester de Ferguson e o Chelsea de Mourinho em menor escala, continua a ser o estilo de jogo preferencial em maior parte de seus clubes. Para os torcedores das ilhas que vibram tanto com uma boa dividida quanto com um gol, é dificil imaginar um jogo sem luta, baseado apenas na técnica, para expressar esta dicotomia as palavras de Emanuel Petit volante francês acostumado a um jogo mais lento e tecnico em sua terra, quando passou a atuar no Arsenal: “Nós, os latinos repreendemo-los por não intelectualizarem o jogo, enquanto eles nos acusam de de falta de coração”.

  Os alemães e sua eficiência, sempre em busca da organização e do resultado, em conjunto com suas caracteristicas morfológicas, desenvolvem um estilo de jogo baseado na força atlética e na capacidade física, sem grandes preocupações estilisticas, o sistema como base para o sucesso, a eficiência como o cominho para alcançá-lo, muitas vezes recheados com jogadores extremamente técnicos, como Helmut Rahn, o Kaiser Beckenbauer, Lothar Matthäus e o goleador Klismann, em épocas diferentes, todos porém fisicamente com o traço genético alemão, mentalmente fortes pouco propensos a demonstrar qualquer tipo de emoção mesmo com o placar adverso, uma tradição que conduziu o futebol germânico ao domínio como seleção mais vencedora da Europa, expressa nas palavras do atacante Inglês Gary Lieneker após sua equipe ser desclassificada na disputa de penaltis diante da Alemanha na copa do mundo: “O Futebol é um jogo simples 22 homens correndo atrás da de uma bola durante 90 minutos, e no final os alemães vencem!”.

  Semelhante ao futebol força alemão, porém menos acrescido de talentos, e muito distante em termos de títulos está o estilo de jogo do norte europeu, com a cultura de seu povo condicionada pelo frio, campos  muitas vezes cobertos de gelo, e forte influência britânica, optam pelo jogo direto, em busca do contato físico, abrindo espaço no campo adversário com a bravura de suas raízes Vikings, tradição apenas mascarada pela Dinamarca, berço dos jogadores mais técnicos no futebol do gelo, Alan Simonsen o baixinho driblador do Borussia Mönchenglandbach nos anos 70, ou seu maior expoente Michael Laudrup, dono de uma classe singular e de uma técnica capaz de fazer inveja a qualquer sulamericano, inserido na “Dinamáquina”  da copa de 86, e que mais tarde seria campeã da Euro-92 como convidada, pelos problemas políticos da antiga Iugoslávia.

  As américas e suas influências são um capítulo à parte em termos de cultura futebolistica, nos EUA, o denomindao soccer jamais conseguiu se estabelecer como uma grande paixão popular, muito em função da dificuldade cultural dos americanos em aceitar algumas de suas caracteristicas como por exemplo a possibilidade de uma disputa terminar empatada, ou que aquele com as melhores estatisticas não seja o vencedor, o futebol tem de viver à sombra de esportes mais ligados à cultura americana como o Baseball e seus numeros conclusivos, ou o Futebol Americano e sua profunda ligação com a conquista de território adversário.

  Na américa do Sul, os três países mais destacados no mundo do futebol, possuem uma caracteristica que os aproxima: a técnica, e inúmeras que as diferenciam. O povo Argentino com sua colonização opressora, e sua história marcada pelas lutas contra os regimes autoritários, desenvolve um estilo mesclado entre a técnica e o espirito de luta, disputando cada partida como uma batalha épica pela sobrevivência, com o perfume da rebeldia e contestação, tudo com uma certa dose de melancolia ao som de um dramático Tango.

  Para se entender o apaixonante futebol Uruguaio, é preciso mergulhar nas histórias de Obdulio Varela, “El negro caudillo” o negro chefe, figura central da história celeste,alçado a condição de mito popular, alguém que segundo Nelson Rodrigues “Amarrava as chuteiras não com cordões mas com veias” considerado responsável direto pela maior conquista Uruguai em todos os tempos, a copa do mundo de 1950 em pleno o Maracanã abarrotado com  mais de 100 mil brasileiros, sobre o feito  “El gran capitan”segundo transcrição de Osvaldo Soriano no livro “Memórias del Míster Peregrino Fernandez”:

  “Era um inferno, o jogo começou e durante o primeiro tempo dominamos, mas com o tempo fomos perdendo o controle, faltava experiência para muitos muchachos.Perdemos três gols daqueles que não se pode perder jamais.Eles também tiveram suas chances, mas o mais importante era impedir que  assumissem o controle do jogo.Se isso acontecesse teriamos que enfrentar uma máquina, e aí sim seriamos atropelados. No segundo tempo eles saíram com tudo, sofremos um gol e parecia o fim.Fui buscar a bola nas redes calmamente e me encaminhei, em passos lentos para o meio campo, para acalmar os ânimos, a intenção era falar com o arbitro, e dizer-lhe que houvera off-side, o líner havia levantado a bandeira, mas abaixara quando percebeu que seria gol. Já sabia no entanto que o arbitro não ia atender a reclamação, mas era uma oportunidade para parar o jogo.

  Fui devagar, foi a primeira vez que olhei para cima, fitei o público em desafio, provocando-os.Em vez dos aplausos passou a ouvir-se assobios e vaias, queriam ver sua máquina goleadora em ação e eu não deixava voltar a arrancar, demorei muito a chegar ao centro.Então ao invés de colocar a bola em jogo, segurei-a e disse a Andrade: “calma vou protestar, e vais ver que quando voltar, isto mais parece um cemitério.” Pedi um tradutor e falei com o arbitro do tal off-side e etc, já havia se passado outro minuto, as coisas que me diziam os brasileiros, e eu nem reagi! Quando a partida reiniciou eles estavam cegos e nem viam o gol de tão furiosos comigo.

  Foi então que percebemos que era possível ganhar, como foi possível? simples,  um jogador tem de ser um artista e dominar o cenário, como o toureiro domina o touro e o público, pois do contrário, é engolido.No passado já tinha disputado milhões de jogos, em todos os locais, em campos sem alambrados, com o público em cima de nós e sempre tinha me saído bem, como agora iria ter medo em pleno Maracanã, com toda a segurança?, alí eu sabia que ninguém podia me tocar!, quando fizemos o segundo gol nem podíamos acreditar, campeões do Mundo!, nós que vinhamos jogando tão mal, ficamos loucos.

  Nessa noite fiquei pelo Rio, com o nosso massagista, e saímos para beber umas cervejas, pelas ruas só ouvia choros e lamentações, foi então que entrei num bar e notei que só havia tristeza.Estavam todos a chorar, senti-me mal, afinal eu era responsável por toda esta tristeza, pensei no meu Uruguai,lá sim as pessoas estavam felizes, mas eu estava no Rio.

  Foi então que o dono do bar me reconheceu e disse “Sabem quem é?, é Varela!”, pensei que iam me matar, olharam-me voltaram a me olhar, até que um deles se aproximou me deu um abraço e disse “Senhor Varela, quer tomar umas cervejas conosco?, bebemos para esquecer...”, como eu poderia recusar?, bebemos a noite toda, e durante a madrugada me arrependi de ter ganho, se voltasse a jogar aquela final, faria um gol contra!”.

  Foi assim que nasceu o mito Varela, que molda o estilo destemido do povo uruguaio até hoje, basta citar por exemplo as palavras de Diego Lugano, ídolo São Paulino recente em diversas conquistas, quando em entrevista ao programa Bola da Vez da ESPN,perguntado se nos tempos de criança costumava bricar ser Obdulio Varela, Lugano sem hesitação em uma resposta rápida ausente de pré elaboração proferiu: “De Deus não se brinca!”.

  No Brasil, berço supremo dos maiores mágicos com a bola nos pés, as influências da colonização portuguesa, o clima tropical, e a enorme miscigenação de raças moldam um estilo relaxado, averso a grandes elaborações táticas, concentrado na capacidade técnica, seu apego a bola é tão grande que cada jogador que a controla parece relutante em vê-la partir, desta íntima relação só poderia nascer o maior jogador de todos os tempos, Pelé o rei do futebol, e a seleção mais vitoriosa em todos os tempos, a seleção canarinho com seus cinco títulos mundiais.

  Conta Raí, que sempre ouvia falar do estatuto do jogador brasileiro no exterior, mas não ligava muito, até que no seu primeiro treino pelo Paris Sanit Germain, durante um simples exercicio de correr com a bola dominada por entre uma série de cones, levando a bola de um pé para o outro, começou a fezê-lo sem errar nenhum toque, e seus companheiros espantados exclamaram: isto é o Brasil!, foi então que se deu conta que ali era diferente, que tinha este estatuto particular e que teria de estar sempre a altura.

  Nos ultimos tempos, o avanço social, ou especificamente a globalização, aos poucos vai acabando com estas raízes culturais no futebol, sobretudo no velho continente a formação da união européia, um bloco comercial coeso transformou também o mundo da bola, é cada dia mais comum equipes como a Internazionale, o Chelsea, o Arsenal e tantas outras maiores ou menores entrarem em campo sem qualquer jogador de seus próprios países de origem, afetando diretamente as seleções nacionais, e a sua cultura futebolistica.Isto no entanto não significa necessariamente o fim, talvez estejamos presenciando uma fase de transição, em que novos estilos gradualmente assumam o lugar dos antigos, mas inegavelmente cada dia mais o futebol se distancia de suas verdadeiras raízes.